segunda-feira, 30 de abril de 2012

Festa de arromba

Minto, logo existo

Com o início de mais uma CPI em busca da verdade, a única certeza é que ouviremos mais uma cachoeira de mentiras. Mesmo jurando sobre a Bíblia, eles vão mentir, como José Roberto Arruda fez na tribuna do Senado, jurando pelos seus filhos que não tinha violado o painel eletrônico.
Quantas vezes ainda ouviremos alguém dizer “eu não sabia”? É difícil saber se já houve mais corrupção no Brasil em outro tempo, mas certamente nunca na história deste país se mentiu tanto. Só que agora as mentiras se espalham instantaneamente pela sociedade, mas podem ser mais rapidamente desmentidas pelos fatos e pela tecnologia.
Historicamente, nos Estados Unidos e em países de cultura protestante, mentir é um ato muito mais grave, moral e legalmente, do que na América católica.
Em países regidos por esses códigos morais, mentir em juízo sob juramento é crime de perjúrio que pode levar à prisão e até derrubar presidentes.
Como o mentiroso Richard Nixon, obrigado a renunciar depois do escândalo Watergate, e Bill Clinton, que sofreu um impeachment na Câmara dos Representantes, com muitos votos do seu próprio partido, não pelo mau gosto do romance com Monica Lewinsky, mas porque mentiu. Foi salvo pelo Senado, por poucos votos. E era um dos presidentes mais populares e bem-sucedidos da história americana, com sólido apoio parlamentar.
A verdade é que todo mundo mente, uns mais e outros menos, para o mal e para o bem, pelos mais diversos motivos, sentimentos e circunstâncias, é parte da condição humana. Mas quando alguém mente para si mesmo, como Sarney se acreditando um grande estadista de moral ilibada, ou Zé Dirceu se dizendo “cada vez mais convencido” de sua inocência no mensalão, para esses casos não há cura. Mas isto é assunto psicanalítico, estamos falando de roubos e conspirações de políticos, empresários e funcionários contra o Estado.
Como nos lembram CPIs recentes, eles mentem cínica e impunemente, humilham nossa inteligência, desmoralizam nossa fé nas instituições e provam que aqui a mentira é não só tolerada como recompensada. Eles anunciam uma verdade brasileira: minto, logo existo.

domingo, 29 de abril de 2012

A felicidade interna do rei do Butão

Já não é de hoje que se promove o tal indicador de Felicidade Interna Bruta (FIB), segundo o qual a medição do progresso de uma comunidade ou nação não deve ficar restrita ao desenvolvimento econômico, mas deve avaliar o bem-estar psicológico, a saúde, o uso equilibrado do tempo, a vitalidade comunitária, educação, cultura, resiliência ecológica, governança e padrão de vida.
Acredito que pouca gente seja contra a sociedade perseguir individualmente tais objetivos, mas há dois perigosos elementos do discurso pelo FIB: (1) a prosperidade econômica é uma imposição maléfica que deve ser "sanada" e (2) é necessário promover uma mudança social em prol do bem-estar coletivo em parceria, também, com o governo.
Isso reforça o mito de que a economia é um corpo estranho e danoso para a sociedade. E que o mercado é formado por um grupo pequeno de grandes empresas que controlam tudo e a todos, e não por cada de um de nós, do pipoqueiro ao consumidor até os grandes empresários. O mercado somos nós.
O segundo ponto talvez seja mais grave por reforçar uma certa agenda política que faz uso da palavra coringa "social" com o objetivo de legitimar suas finalidades.
Como, no Brasil, movimento social é algo que está (ou quer estar) intimamente ligado ao governo, de preferência financiado pelo nosso dinheiro, temo que seus defensores virem mais um braço do partido no poder a defender o modelo estatista, que está na origem do horror contra o mercado e a iniciativa privada.
Talvez soe bonito acusar o crescimento econômico pelos males do mundo e pelos problemas que inviabilizam ou destroem aqueles nove pontos descritos pelo indicador.
Mas pergunte a cada uma das pessoas que vivem nas diversas escalas da pobreza para saber se elas conseguem perseguir tais objetivos sem, antes, prosperar economicamente.
Atribuir ao Estado responsabilidades que são individuais faz com que a elite política no poder acredite realmente estar cumprindo uma nobre missão em nome de bem-comum, do coletivo, nem que para isso seja preciso esmagar a sociedade. Não se engane: a tutela estatal é uma espada de Dâmocles.
Se levarmos em conta o que acontece quando o governo desenvolve novas funções a partir da expropriação das riquezas que produzimos (no Brasil, trabalhamos de janeiro a maio só para pagar tributos), certamente a Felicidade Interna Bruta terá que alterar seu nome para outro bem menos alegre.
Por uma dessas ironias da história, a FIB foi criada em 1972 por Jigme Singya Wangchuck, rei daquele pequeno país chamado Butão.
Essa nação aparece no 141º lugar (de 187) do Índice de Desenvolvimento Humano 2011 da ONU, em 142º lugar (de 183 países) na lista do Doing Business de 2012, que mede a facilidade de fazer negócios, e em 111º lugar (de 179 países) na lista do Índice de Liberdade Econômica 2012 da Heritage Foundation (qualificado como país não livre, como o Brasil).
Certamente, a Felicidade Interna Bruta do rei de Butão era mais elevada do que a dos seus súditos.
(*Bruno Garschagen é mestre em ciência política e relações internacionais pela Universidade Católica de Portugal.)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Breve lição de liderança

A menina, Natalie Gilbert, 13 anos, iria cantar o Star Spangled Banner, hino dos Estados Unidos, no jogo da NBA, para um público de 20 mil pessoas.
Afinada, mas sozinha diante da multidão, ela se emociona, vacila, esquece a letra.
A multidão ameaça uma vaia.
Então surge o técnico Mo Cheeks, do Trail Blazers. Vem para junto da menina e começa a cantar, incentiva e traz o público junto.
Uma atitude de liderança, no momento certo, faz toda a diferença. Veja o vídeo: 
 
A lição, ligeira, não é nova.
Mas útil, sempre.
Oportuna neste Brasil atual, onde falsos líderes populistas mobilizam poderes e recursos para perpetrarem suas maracutaias no esforço de livrar a cara de bandidos-companheiros-cúmplices enrascados até o talo com a Justitia por seus crimes de corrupção.
Tudo em nome de um projeto de poder pessoal, partidário, contra o progresso e a ordem de uma Nação que a tudo assiste, basbaque, guardando vaias apenas para os momentos de catarse alienante e escapista das “torcidas organizadas” à esquerda, à direita e à margem da derrocada de um país em rota de colisão contra si mesmo.

Maracutaia? É com ele mesmo!

A falência múltipla dos órgãos públicos

Arnaldo Jabour (publicado no Jornal O Globo, 17/04/12)
Os corruptos ajudam-nos a descobrir o País. Há sete anos, Roberto Jefferson nos abriu a cortina do mensalão. Agora, com a dupla personalidade de Demóstenes Torres, descortinamos rios e florestas e a imensa paisagem de Cachoeira. Jefferson teve uma importância ideológica.
Cachoeira é uma inovação sociológica. Cachoeira é uma aula magna de ciência política sobre o Sistema do País. Vamos aprender muito com essa crise. É um esplendoroso universo de fatos, de gestos, de caras, de palavras que eclodiram diante de nossos olhos nas últimas semanas. Meu Deus, que riqueza, que profusão de cores e ritmos em nossa consciência política! Que fartura de novidades da sordidez social, tão fecunda quanto a beleza de nossas matas, cachoeiras, várzeas e flores.
Roberto Jefferson denunciou os bolchevistas no poder, os corruptos que roubavam por “bons motivos”, pelo “bem do povo”, na base dos “fins que justificam os meios”. E, assim, defenestrou a gangue de netinhos de Lenin que cercavam o Lula que, com sua imensa sorte, se livrou dos mandachuvas que o dominavam. Cachoeira é uma alegoria viva do patrimonialismo, a desgraça secular que devasta a história de nosso País. Sarney também seria ‘didático’, mas nada gruda nele, em seu terno de ‘teflon’; no entanto, quem estudasse sua vida entenderia o retrato perfeito do atraso brasileiro dos últimos 50 anos.
Cachoeira é a verdade brasileira explícita, é o retrato do adultério permanente entre a coisa pública e privada, aperfeiçoado nos últimos dez anos, graças à maior invenção de Lula: a ‘ingovernabilidade’.
Cachoeira é um acidente que rompeu a lisa aparência da ‘normalidade’ oficial do País. Sempre soubemos que os negócios entre governo e iniciativa privada vêm envenenados pelas eternas malandragens: invenção de despesas inúteis (como as lanchas do Ministério da Pesca), superfaturamento de compras, divisão de propinas, enfrentamento descarado de flagrantes, porque perder a dignidade vale a pena, se a grana for boa, cabeça erguida negando tudo, uns meses de humilhações ignoradas pelo cinismo e pela confiança de que a Justiça cega, surda e muda vai salvá-los. De resto, com a grana na ‘cumbuca’, as feridas cicatrizam logo.
O governo do PT desmoralizou o escândalo e Cachoeira é o monumento que Lula esculpiu. Lula inventou a ingovernabilidade em seu proveito pessoal. Não foi nem por estratégia política por um fim ‘maior’ – foi só para ele.
Achávamos a corrupção uma exceção, um pecado, mas hoje vemos que o PT transformou a corrupção em uma forma de governo, em um instrumento de trabalho. A corrupção pública e a privada é muito mais grave e lesiva que o tráfico de drogas.
Lula teve a esperteza de usar nossa anomalia secular em projeto de governo. Essa foi a realização mais profunda do governo Lula: o escancaramento didático do patrimonialismo burguês e o desenho de um novo e ‘peronista’ patrimonialismo de Estado.
Quando o paladino da moralidade Demóstenes ficou nu, foi uma mão na roda para dezenas de ladrões que moram no Congresso: “Se ele também rouba, vamos usá-lo como um Omo, um sabão em pó para nos lavar, vamos nos esconder atrás dele, vamos expor nosso escândalo por seu comportamento e, assim, seremos esquecidos!”
Os maiores assaltantes se horrorizaram, com boquinha de nojo e olhos em alvo: “Meu Deus… como ele pôde fazer isso?…”
Usam-no como um oportuno bode expiatório, mas ele é mais um ‘boi de piranha’ tardio, que vai na frente para a boiada se lavar atrás.
Demóstenes foi uma isca. O PT inventou a isca e foi o primeiro a mordê-la. “Otimo!” – berrou o famoso estalinista Rui Falcão – “Agora vamos revelar a farsa do mensalão!” – no mesmo tom em que o assassino iraniano disse que não houve holocausto. “Não houve o mensalão; foi a mídia que inventou, porque está comprada pela oposição!” Os neototalitários não desistem da repressão à imprensa democrática…
E foi o Lula que estimulou a CPI, mesmo prejudicando o governo de Dilma, que ele usa como faxineira também das performances midiáticas que cometeu em seu governo. Dilma está aborrecida. Ela não concorda que as investigações possam servir para que o Partido se vingue dos meios de comunicação e não quer paralisar o Congresso. Mas Lula não liga. “Ela que se vire…” – ele pensa em seu egoísmo, secretamente, até querendo que ela se dane, para ele voltar em 14. Agora, todo mundo está com medo, além da presidente. O PT está receoso – talvez vagamente arrependido. Pode voltar tudo: aloprados, caixas 2 falsas, a volta de Jefferson, Celso Daniel, tantas coisinhas miúdas… A CPI é um poço sem fundo. O PMDB, liderado pelo comandante do atraso Sarney, também está com medo. A velha raposa foi contra, pois sabe que merda não tem bússola e pode espirrar neles. Vejam o pânico de presidir o Conselho de Ética, conselho que tem membros com graves problema na Justiça. Se bem que é maravilhoso o povo saber que Renan, Juca, Humberto Alves, Gim Argello, Collor serão os ‘catões’, os puros defensores da decência… Não é sublime tudo isso? Nunca antes, em nossa história, alianças tão espúrias tiveram o condão de nos ensinar tanto sobre o Brasil. A cada dia nos tornamos mais sábios, mais cultos sobre essa grande chácara de oligarquias. E eu estou otimista. Acho que tudo que ocorre vai nos ensinar muito. Há qualquer coisa de novo nessa imundície. O mundo atual demanda um pouco mais de decência política. Cachoeira, Jefferson, Durval Barbosa nos ensinam muito. Estamos progredindo, pois aparece mais a secular engrenagem latrinária que funciona abaixo dos esgotos da pátria. A verdade está nos intestinos da política.
Mas, o País é tão frágil, tão dependente de acasos, que vivemos com o suspense do julgamento do mensalão pelo STF.
Se o ministro Ricardo Lewandowski não terminar sua lenta leitura do processo, nada acontecerá e a Justiça estará desmoralizada para sempre.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O perigosíssimo endividamento das famílias brasileiras

Ralph J. Hoffmann
Desde o surgimento da avassaladora crise do sistema financeiro internacional, que começou nos Estados Unidos com o estouro da bolha imobiliária e a explosão dos chamados títulos "sub-prime", o governo brasileiro, sob o comando do "genial economista" Lula, determinou que se abrissem as portas dos cofres oficiais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES e outros instrumentos) do crédito. Um carro passou a ser financiado em até 100 meses ( oito anos e três meses), sem qualquer entrada.
Ninguém do PT, do governo petista, Lula ou qualquer outro dos seus liderados, disse ao povo brasileiro que um carro implica em outros gastos, como pagamento de IPTU, garagem, estacionamento em qualquer lugar na rua, combustível, manutenção. Menos ainda que um carro não dura mais do que cinco anos. Imagine a dívida perdurar por oito anos. Pois bem... todo mundo se atirou a comprar carros.
Lula foi incensado como um gênio, o maior estadista do mundo, o único com a lanterna do conhecimento para ditar como se enfrenta uma crise econômica. Segundo ele, é preciso manter o consumo, e até aumentá-lo, para manter os empregos e a renda. Como se isso fosse um movimento inesgotável.
Agora se vê o momento em que a conta é apresentada para o povo brasileiro. Conforme o Banco Central, nos últimos 12 meses, a inadimplência saltou 44%. Diz o ex-ministro Paulo Brossard: "A partir daí, quando o quadro se agrava, o financiado verificou que não terá condições para liquidar a sua dívida, e o próprio bem empenhado deixa de ser a garantia do credor, sabido que o uso do carro reduz significativamente seu valor de venda. Ora, isto importa em reconhecer que, muito antes do termo dos 60 meses, o bem dado como garantia torna-se insuficiente para quitá-la. Segundo informam os conhecedores do mercado, um carro pode depreciar até 40% em um ano. Agora a gravidade maior veio à luz, na angústia em que se encontra o devedor que, até de graça entrega o seu automóvel para liberar-se da dívida impagável e, cada vez mais, se repete o expediente". Esse é o ponto. Está formada a bolha.
Milhares e milhares de consumidores no País não estão conseguindo pagar suas dívidas, o financiamento do seu carro. E não adianta a retomada do carro pelo agente financiador, porque o valor dele não cobre o que foi financiado e os juros. O exemplo do consumidor paulista, que deu o carro para outra pessoa que se comprometeu a ficar com a dívida restante, em troca de se livrar da sua própria dívida, não é sistema que possa ser usado por todos os consumidores endividados. Está formada a bola, e é muito mais do que sub-prime, porque não tem garantia alguma. Isso, inevitavelmente, alcançará os bancos, que estão encalacrados com gigantescas carteiras de financiamento de veículo.
A situação não é nada boa. Mas, parece que está tudo bem, haja vista os altos índices de aprovação da presidente Dilma Rousseff. Uma nação caminha para a crise assim, negando-se a ver o que está à frente dos seus olhos. No caso, não há um só político que aponte os riscos que o país está vivendo, nenhum deputado ou senador, apesar de terem mais de 20 mil assessores que, teoricamente, deveriam fazer estudos e mostrar os resultados para os parlamentares.
Preparem-se os virtuosos que não se deixaram seduzir por essa orgia de consumo sem lastro.
 Retrato da era mediocridade e da falsa prosperidade: 
como num ciclo infernal da Comédia de Dante

domingo, 22 de abril de 2012

Dia da Terra

E você, onde estava?

Eram milhares os manifestantes reunidos no sábado, 21, em mais de 80 cidades brasileiras.
Mas ainda eram poucos.
Eram milhares para protestar contra a corrupção e cobrar do Supremo Tribunal Federal (STF) presteza no julgamento do mensalão, a sofisticada organização criminosa, segundo a Procuradoria Geral da República, urdida pelo PT. Eram milhares a cobrar o fim da impunidade.
Mas ainda eram poucos.
Eram milhares, a expressar sua indignação frente ao silêncio e à cumplicidade.
Mas ainda são poucos.
Falta você! 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Hilária


Hillary: “Será que bananas entender o piada?”

Hillary Clinton, a secretária de Estado dos USA, veio ao Brasil exercitar sua veia para o stand-up comedy.
"Seu comprometimento com abertura e transparência, sua luta contra a corrupção estão estabelecendo um padrão global" – teria dito Hillary sobre a presidente Dilma Rousseff.
A visita de HC coincide com o momento em que o partido de DR, o PT, move cascatas e cachoeiras para abafar o escândalo do mensalão e adiar à prescrição o julgamento de   petralhas como Delúbio Soares e José Dirceu – o chefe da sofisticada organização criminosa, segundo a Procuradoria Geral da República. Entre outros comparsas, como José Genoíno, que é réu por formação de quadrilha, mas está mocado no cargo de assessor especial do Ministério da Defesa do governo Dilma.
Todos continuam livres, leves, soltos, bem remunerados, defecando e andando, a esfregar na cara dos brasileiros o deboche da impunidade. Tudo sem que Dilma dê pio.
Podem rir. Se quiser ou puderem.

terça-feira, 17 de abril de 2012

Coisa boa não é

Tião Martins (publicado no Jornal Hoje em Dia, 17/04/12)
O Brasil é hoje tetracampeão em felicidade e será também daqui a cinco anos, garante pesquisa recente da Fundação Getúlio Vargas (associada à Consultoria Gallup).
Deveríamos negociar a receita do milagre com o resto do mundo. Sarkozy, Angela Merkel, Vladimir Putin, Barack Obama e outros líderes de povos infelizes pagariam uma nota preta por esse brasileiríssimo segredo tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.
Afinal, quem nos fez assim tão felizes? Nossos ministros inocentes e puros de coração, Delúbio Soares e Renan Calheiros, talvez. Ou teria sido o novíssimo integrante da banda podre? Novíssimo no sentido de que ainda será descoberto, pois acabou de se associar ao bando e ainda não caiu nas graças de bichos e bicheiros.
Neste solo fértil do Brasil, "tudo em se plantando dá", contava em 1500 o escrivão Pero Vaz de Caminha. São cinco séculos e alguns quebrados de plantio e colheita do bom e do melhor.
Plantaram o mensalão, por exemplo, e foi o maior sucesso na carreira política do Zé Dirceu, que obteve a lista quase completa dos políticos corruptos. Quase.
Depois, vieram outros, que ainda lutam bravamente por um convite para a grande festa.
Lançaram o crack e já somos campeões mundiais de consumo e disputamos o título de grandes exportadores para a Europa e a África.
Comemoramos a edição da lei seca no trânsito e nunca tivemos tantos bêbados ao volante, atropelando e matando.
Estávamos todos preocupados com o que aconteceria na bacia do Rio São Francisco, com o incrível projeto de transposição das águas, que já engoliu mais dinheiro público que qualquer governador do Distrito Federal. E lá está o Rio do Chico, cada vez mais seco e poluído, mas quietinho em seu curso, por onde corre há milênios.
O maravilhoso trem-bala, promessa do Messias milagreiro, até hoje não provocou qualquer dano ambiental na Mata Atlântica, entre Rio e São Paulo, simplesmente porque ainda não saiu do papel.
Sim, somos felizes, mais que o universo inteiro, por uma razão simples: não damos o menor valor a nada disso. A corrupção nos diverte, a mentira estimula a criatividade dos chargistas e é preciso garantir o cachê dos humoristas da TV.
Engoliram nosso dinheiro? Azar o deles.
Dinheiro não traz felicidade e ainda vai acabar provocando tremenda indigestão em nossos líderes. Se o PMDB, o PT, o PP, o PTB e demais afilhados estão felizes e de barriga cheia, ótimo. Isso é que importa.
E agora que os brasileiros estão mais felizes que suecos, suíços e dinamarqueses, por que vamos perder o sono? Temos samba, carnaval e futebol.
Essa pesquisa veio na hora certa, para levantar ainda mais o astral da turma. Logo, trata-se de patriótica contribuição da FGV, que certamente foi bem remunerada por esse trabalho, como aconteceu com o projeto de reforma que fez para o Senado, por encomenda do patriota José Sarney.
A Fundação jura que ouviu cerca de 200 mil pessoas, em 158 países.
Hoje, 157 estão infelizes, enquanto nós esbanjamos saúde de ferro, entusiasmo juvenil e alegria de palhaço que vê o circo pegar fogo. Além da certeza de que estaremos sempre assim.
Só é estranha e suspeita a conclusão de que as mulheres brasileiras andam bem mais felizes que os homens. O que será que estão aprontando? Como diria o falecido Manoel Calvão, marido ciumento, desses que dormem de olho aberto, suspeitam da própria sombra e jamais largam o cabresto, "coisa boa não é". Tanto que a mulher dele nunca foi feliz. E ele também não.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Cachoeira dá as cartas

Mary Zaidan
O bicheiro Carlos Cachoeira, meliante conhecido, pródigo em distribuir e colher benefícios suspeitos entre gente de todos os partidos políticos e em todas as searas da República, é mesmo fenomenal. Um gênio.
Encarcerado em Mossoró desde o dia 29 de fevereiro, é ele, e ninguém mais, quem dá as cartas, muitas delas distribuídas, prévia e cuidadosamente, nos vazamentos a conta-gotas das escutas da Polícia Federal sobre a operação Monte Carlo.
Com uma rede vasta que vai do DEM ao PC do B, do PSDB ao PT, Cachoeira conhece o seu poder de fogo. Sabe o quanto vale uma única palavra sua, seja para inocentar ou afogar de vez alguém no lamaçal mais profundo.
Safo, até então não deu um pio. Talvez fale para quem der mais. A conferir.
Bandido de altas esferas, Cachoeira tem nada menos do que o ex-ministro da Justiça de Lula, Márcio Thomaz Bastos, respondendo por sua defesa. Ao custo de R$ 15 milhões.
O mesmo Thomaz Bastos que aconselhou o ex-ministro Palocci no episódio da quebra de sigilo do caseiro Francenildo. Que orientou a defesa do então assessor do ministro José Dirceu, Waldomiro Diniz, flagrado negociando propina de R$ 100 mil de ninguém menos do que Carlinhos Cachoeira. O mesmo Thomaz Bastos que defende mensaleiros.
Ou seja: quando a dor ultrapassa o calo e pode comprometer o corpo e a alma, ele, Thomaz Bastos, é chamado. E assim foi. De novo.
A contratação do ex-ministro é simbólica. Tem a rubrica de Lula e do PT, que tudo fazem para tentar se aproveitar do escândalo Cachoeira e, a partir dele, misturar todo o joio e o pouco trigo para amenizar o do mensalão, prestes a ser julgado pelo STF.
Acreditam ser possível demonizar a “direita” – encarnada no senador Demóstenes Torres (ex-DEM), uma personalidade que desafia até a psiquiatria de ponta -, e encrencar os tucanos, pelas ligações perigosas do governador de Goiás Marconi Perillo, o mesmo que avisou Lula sobre a existência do mensalão, muito antes de o esquema vir à tona.
Com instruções e aval do ex-presidente, o PT se movimenta. E sem qualquer constrangimento em rifar o governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz, petista novato. Que se dane perdê-lo se em jogo está purgar os males de Dirceus, Delúbios, João Cunhas.
Cachoeira continua entre grades. Há muitos que apostam que é possível monitorar danos enquanto Thomaz Bastos segurá-lo. Mas como bandidos não são confiáveis – os que depuseram confirmando recebimento de boladas mensais para votar com o governo Lula são prova disso –, há alguma luz no fim do túnel.
Triste país este, que depende da palavra de malfeitores para lavar a sua honra.

A cascata do cara

domingo, 15 de abril de 2012

3D de Dilma

Dilma Rousseff foi flagrada usando óculos 3D.
É para tentar enxergar o País das Maravilhas que só Lula & Petralhas Amestrados conseguem ver.

O inferno são os outros

A Copa da Roubalheira de 2014 é piada na Suíça – aquele paraíso fiscal aprovado por gente fina como Paulo Maluf & Familiares –, preferido de 11 entre 10 corruptos chegados a uma “evasão de divisas”: uma sonegaçãozinha aqui, um desviozinho acolá, uma lavagenzinha de dinheiro ali... 
O inferno é aqui. E será.

As coisas transitórias

Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
(Rabindranath Tagore, in "O Coração da Primavera")

Deep Forest - Sweet Lullaby

sábado, 14 de abril de 2012

Homicídios no Brasil: a guerra civil do crime

JOSÉ MARIA E SILVA

Pior do que esses 40 anos da guerra de Angola só mesmo a paz do Brasil nos últimos 30 anos. Aqui, entre 1980 e 2010, ocorreram 1.091.125 homicídios, ou seja, 36.371 assassinatos por ano – mais do que o dobro de todas as mortes que ocorreram nas guerras de Angola.
A defesa de criminosos no Brasil é suprapartidária.
Os olhos esbugalhados da fome e o verniz reluzente dos ventres inchados compõem uma espécie de cartão-postal da miséria humana que atende pelo nome de África, sobretudo a África subsaariana, que restou das lutas coloniais. No palco dessa tragédia contemporânea, Angola ocupa lugar de destaque, tendo protagonizado um dos mais sangrentos conflitos do século passado. Parte dessa guerra assombra o romance Os Cus de Judas, do escritor português António Lobo Antunes, narrado por um médico que serviu na guerra de independência de Angola. “À medida que trabalhava o coto descascado de um membro ou reintroduzia numa barriga os intestinos que sobravam”, o médico-narrador dá-nos conta do desespero da guerra, sem saber o que é pior, se a vida retalhada nos destroços de um cadáver ou a morte adiada nos corpos mutilados.
A despeito de sua dúvida, um dado é certo: ao longo de 13 anos, entre 1961 e 1974, a guerra pela independência de Angola deixou 39 mil mortos, numa razão de 3 mil mortos por ano. E a libertação de Portugal foi apenas o prelúdio de uma carnificina muito maior. Logo em seguida, os angolanos foram mergulhados numa guerra civil que, ao longo de 27 anos, entre 1975 e 2002, deixou um rastro lúgubre de 550 mil cadáveres. Nesse verdadeiro calvário de 40 anos de guerra, Angola contabilizou 590 mil mortos, à razão de quase 15 mil mortos por ano. Pior do que esses 40 anos da guerra de Angola só mesmo a paz do Brasil nos últimos 30 anos. Aqui, entre 1980 e 2010, ocorreram 1.091.125 homicídios, ou seja, 36.371 assassinatos por ano – mais do que o dobro de todas as mortes que ocorreram nas guerras de Angola.
O “Relatório sobre o Peso Mundial da Violência Armada”, publicado em 2008 pela Declaração de Genebra, na Suíça, fez um balanço dos 62 conflitos armados no mundo entre 2004 e 2007, incluindo a Guerra do Iraque, e constatou que os 12 maiores conflitos vitimaram 169.574 pessoas. Mas esse total de mortos, que representa 81,4% das mortes ocorridas em todos os conflitos do período, está bem abaixo do número de vítimas de homicídios no Brasil entre 2004 e 2007 – só nesses quatro anos foram assassinadas 192.804 pessoas no país, pouco menos do que os 208.349 mortos dos 62 conflitos armados em todo o mundo. Ou seja, o Brasil não tem disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, enfrentamentos religiosos, raciais ou étnicos, mas sua paz é literalmente de cemitério – muito mais sangrenta e letal que as próprias guerras.
Paz banhada em sangue
Esse comparativo que envergonha a paz brasileira – mais banhada em sangue do que os principais conflitos bélicos do mundo – foi traçado pelo “Mapa da Violência”, um estudo anual do Instituto Sangari, sob a responsabilidade do sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, que vem sendo produzido desde 1998, num total, até agora, de 12 mapas. De acordo com a série histórica sintetizada pelo Mapa da Violência 2012, o Brasil passou de 13.910 homicídios em 1980 para 49.932 em 2010 – um aumento de 259%, equivalente a 4,4% de crescimento ao ano. Nesse período, a taxa de homicídios no país saltou de 11,7 em 1980 para 26,2 homicídios por 100 mil habitantes em 2010. Ou seja, enquanto a população brasileira teve um crescimento de 60,3% no período, passando de 119 milhões em 1980 para 190,7 milhões em 2010, a violência homicida mais do que dobrou em relação ao crescimento demográfico, com um aumento de 124% no período ou 2,7% ao ano. E, em 2003, quando o Brasil contabilizou um total de 51.043 homicídios, essa taxa chegou a 28,9, sem dúvida, uma das maiores do mundo.
A despeito dessa verdadeira carnificina, o Brasil nunca tratou com a devida seriedade o problema dos homicídios, mesmo sendo eles o principal indicador da violência criminosa, como reconhece o próprio Instituto Sangari no estudo citado: “A morte representa, per se, a violência levada a seu grau extremo. Da mesma maneira que a virulência de uma epidemia é indicada, frequentemente, pela quantidade de mortes que ela origina, também a intensidade nos diversos tipos de violência guarda uma estreita relação com o número de mortes que causa”. Além disso, as demais formas de violência são sempre mal representadas nas estatísticas oficiais, como também observa o instituto com base em sua experiência em estudos do gênero: “Nos casos de violência física, só 6,4% dos jovens denunciaram à polícia; nos casos de assalto ou furto, foram somente 4%; nos casos de violência no trânsito, apenas 15%”. Já o homicídio não depende das circunstâncias subjetivas que influem no ato de denunciar ou não um crime, pois o corpo da vítima é uma estatística concreta (em que pese o Rio de Janeiro do governador Sérgio Cabral manipular até cadáver).
Leia o artigo na íntegra, aqui, no site Mídia Sem Máscara.
(José Maria e Silva é sociólogo e jornalista.)

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O STF e o aborto ou a pressa de julgar inocentes. E os culpados?

Por 8 votos a 2 – ampla maioria, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu autorizar o aborto de fetos sem cérebro.
Não deixo em momento algum de considerar (mas não vou adentrar a questão) o sofrimento das famílias, de pai e mãe que acompanham nascimento e morte desses seres.
Como dizem as filósofas Ceguinhas de Campina Grande, a pessoa é para o que nasce. Assim como cada um e todos nascem para morrer. Seja logo após o parto, seja após um século de vida.
Assim como cada um, segundo aquele poema da Verdade, de Drummond, há de optar – e de responder – conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia. Sua opção.
Impressionante é a celeridade do STF para julgar aqueles já condenados inocentes que, óbvio, não têm como se defender. Enquanto em passo de lesma lerda se adia a condenação dos mui vivos réus do “mensalão” – aquela sofisticada organização criminosa, segundo a Procuradoria Geral da República –, em uma gestação prolongada que, parece, vai dar na prescrição. E, portanto, na impunidade.
E por aí vai-se, abortando-se a honestidade, a transparência da vida e da administração pública, onde uma espécie de anencefalia ética, moral, do pior tipo, vai gerando aberrações intocáveis – para as quais o crime compensa e premia.
Mas quem espera ver o processo do mensalão julgado com a mesma presteza com que se decidiu pelo aborto de anencéfalos, pode corroborar o empenho dos ministros e enviar uma mensagem ao Supremo Tribunal Federal, para que julguem os bandidos mensaleiros ainda neste semestre.
Aí vão os endereços eletrônicos dos 11 ministros: 
Celso de Mello – mcelso@stf.gov.br
Marco Aurélio de Mello – marcoaurelio@stf.gov.br
Gilmar Mendes – mgilmar@stf.gov.br
Cezar Peluso – carlak@stf.gov.br
Carlos Britto – gcarlosbritto@stf.gov.br
Joaquim Barbosa – gabminjoaquim@stf.gov.br
Ricardo Lewandowski – gabinete-lewandowski@stf.gov.br
Carmen Lúcia – anavt@stf.gov.br
Dias Toffoli – gabmtoffoli@stf.jus.br
Rosa Weber – audiencias-minrosaweber@stf.jus.br ou convites-minrosaweber@stf.jus.br

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Enigmas?

Roberto Damatta (publicado no Jornal O Estado de S.Paulo, 11/04/12)
Demóstenes perdeu o pai aos 7 anos. Sua herança foi roubada por tutores. Abriu um processo, os ladrões recorreram, ele perdeu. Menino, Demóstenes assistiu a um julgamento no qual um orador brilhante mudou a opinião pública. Demóstenes invejou sua glória e ficou impressionado com o poder da palavra. Pensou, então, em ser um grande orador, mas o sonho parecia impossível, pois, como o rei George VI da vida e da fita, era gago. Corajoso, Demóstenes foi à luta. Curou a gaguez declamando poemas diante do mar, contra o vento; forçando-se a falar (como fazem alguns políticos) com pedras na boca. Graças a esse extenuante treinamento, Demóstenes foi o maior orador da Grécia.
Como um democrata, dedicou sua vida à defesa de uma Atenas ameaçada por Filipe II, da Macedônia, pai do não menos hollywoodiano Alexandre, o Grande. Demóstenes escreveu inúmeros discursos e alguns roteiros com o objetivo de conclamar os atenienses, mas Filipe II venceu.
No ano 335 a.C., Demóstenes foi condenado por facilitar a fuga de um ministro de Alexandre de Atenas. Recebeu uma boa grana, mas como não estava em Brasília, foi preso mas conseguiu fugir, exilando-se em Atenas por um longo período. Na Grécia antiga, os oradores não tinham imunidade.
Após a morte de Alexandre, Demóstenes volta do exílio e retoma a vida pública. Alia-se imediatamente à revolta contra o ditador macedônio Antípatro, mas perde. Exila-se no templo de Poseidon, faz algumas palestras a peso de ouro para alguns mercadores, mas vendo-se cercado pelos soldados do inimigo, Demóstenes termina com a própria vida tomando veneno.
Em 322 antes de Cristo, os políticos se suicidavam quando cometiam malfeitos. No Brasil, apenas Vargas perpetrou o gesto extremo de um suicídio de honra. Neste mundo cada vez mais ambíguo no qual tentamos viver, essa sensibilidade com a moral coletiva só tem ocorrido no Japão, que os políticos e os financistas de Wall Street dizem ser um país exótico...
John Winthorp (1588-1649) chegou à América com a intenção de construir uma comunidade utópica – uma nova Jerusalém numa "nova" Inglaterra. Aprendi isso com o Robert Bellah do livro Habits of the Heart (Hábitos do Coração). Nele, há uma recapitulação desse messianismo fundado em princípios mais do que em santos e pessoas, como é o caso ibérico e brasileiro.
John Winthrop foi o primeiro governador eleito da Colônia da Baía de Massachusetts. Seu objetivo não era enriquecer, mas criar uma comunidade na qual a prosperidade sinalizasse aprovação divina e, por isso, o seu exemplo como homem público merece ser relembrado nestes tempos de Brasil que se torna uma sociedade de massa, mas que ainda tem uma vida pública entupida de leis, mas carente de ética.
Durante os seus 12 mandatos como governador, Winthrop foi exemplar e inovador. Moderação e um bom senso extraordinário caracterizam sua administração. Conta-se que durante um inverno particularmente longo e rigoroso a lenha de Winthrop era roubada por um vizinho pobre. O governador mandou chamá-lo e declarou que, devido à severidade do inverno e de suas necessidades, ele tinha permissão para apanhar toda a lenha que precisasse durante aquela temporada. Com isso, dizia Winthrop a seus amigos, ele havia curado o homem do roubo.
Alguns dos nossos políticos têm dupla personalidade, mas como eu tentei mostrar em Carnavais, Malandros e Heróis, o Brasil tem uma duplicidade de raiz. Ele é feito de leis universais (válidas para todos) mas, tal como o barqueiro napolitano de Max Weber, nós não podemos cobrar dos parentes, cobramos menos dos amigos, cobramos demasiado dos desconhecidos, e cobramos estupidamente (com a devida comissão para pessoas e partido) quando o passageiro é o governo. Dois pesos e medidas levados ao extremo acabam em despotismo (os nossos fazem apenas "malfeitos" e são blindados); destitui de ética a impessoalidade do que é público. Até hoje não admitimos que um "homem público" simplesmente não tenha "vida privada" porque ele não é gerente de coisas sem dono; é – isso sim – um administrador do que pertence à sua coletividade. É falsa essa apropriação do público pelo privado, porque os eleitos não são donos de coisa nenhuma; são simplesmente responsáveis pelo que é de todos. O problema é que vemos como anomalia um traço de um Brasil que até hoje não quer saber se é um país de família, um clube de compadres e amigos –   ou um sistema de instituições públicas. O governador Winthrop não leu Hirschman, mas soube domar a paixão do roubo, transformando-a em interesse. Aceitou a necessidade e, regulando o furto, tornou o oculto em algo aberto, domesticável e virtuoso. Nós preferimos legislar negativamente e assim transformamos costumes em crime.
É impossível deter as Cachoeiras de desejos, sobretudo quando são proibidos por lei, mas aceitos placidamente pelos costumes da terra, como a amizade e a malandragem. Essas coisas que viciam, como disse um deputado mineiro que construiu um castelo feudal. E, mais que isso, a certeza de que o governo tem muito mais do que pode administrar. Principalmente quando se sabe que aquilo que é de todos (ainda) não é de ninguém. Como prender bandidos num país onde mentir em causa própria é um princípio constitutivo do sistema legal?
(ROBERTO DA MATTA é antropólogo, autor dos livros Carnavais, Malandros e Heróis, Torre de Babel e O que faz o brasil, Brasil?.)

sábado, 7 de abril de 2012

Poema para Iludir a Vida



Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.
Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim
e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.
(Fernando Namora, in "Mar de Sargaços")